sexta-feira, 25 de maio de 2012

Um dia longo d´uma vida…

...estou aqui como ontem, como antes de ontem,e como antes de antes de ontem...e estarei sempre aqui...não sou perfeito, (temos pena) não sou o melhor (ninguem o é), não mereço o melhor (eu sei), mas sou eu...um bocado diferente acredito, amolgado e empanado com o tempo, desiludido e confundido, entregue á realidade crua e dura duma sociedade pequena, de mentes pequenas, em que a minha insignificancia é reduzida á estupidez de quem olha...olha mas não vê...assim como eu,olho e procuro e não vejo nada…estou meio vazio,ou meio cheio, ou as duas coisas,depende do ponto de vista…agora,conscientemente não me custa perder,porque afinal, nada tive e pouco tenho …mas perder não é o problema, já estou habituado…

sábado, 31 de março de 2012

Balada De Um Estranho

Hoje acordaste de uma forma diferente dos outros dias
sentes-te estranho tens as mãos húmidas e frias
tentas lembrar-te de algum pesadelo mas o esforço é em vão
parece-te ouvir passos dentro de casa mas não sabes de quem são

Deixas o quarto e vais a sala espreitar atrás do sofá
mas aí tu já suspeitas que os fantasmas não estão la
vais a janela e ao olhares pra fora sentes que perdeste o teu centro
e de repente descobres que chegou a hora de olhares para dentro

Porque há qualquer coisa que não bate certo
qualquer coisa que deixaste para trás em aberto
qualquer coisa que te impede de te veres ao espelho nu
e não podes deixar de sentir que o culpado és tu

Vês o teu nome escrito num envelope que rasgas nervosamente
tu já tinhas lido essa carta antecipadamente
e os teus olhos ignoram as letras e fixam as entrelinhas
e exclamas: Mas afinal... estas palavras são minhas!"

O caminho pra trás está vedado e tens um muro a tua frente
quando olhas pros lados vês a mobília indiferente
e abandonas essa casa onde sentiste o chão a fugir
arquitectas outra morada, mas sabes que estas a mentir.


Por Jorge Palma

sábado, 17 de março de 2012

Saber Desfrutar Todos os Tempos

Nós mostramo-nos ingratos em relação ao que nos foi dado por esperarmos sempre no futuro, como se o futuro (na hipótese de lá chegarmos) não se transformasse rapidamente em passado. Quem goza apenas do presente não sabe dar o correcto valor aos benefícios da existência; quer o futuro quer o passado nos podem proporcionar satisfação, o primeiro pela expectativa, o segundo pela recordação; só que enquanto um é incerto e pode não se realizar, o outro nunca pode deixar de ter acontecido. Que loucura é esta que nos faz não dar importância ao que temos de mais certo? Mostremo-nos satisfeitos por tudo o que nos foi dado gozar, a não ser que o nosso espírito seja um cesto roto onde o que entra por um lado vai logo sair pelo outro!

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

Diferentes Caminhos para uma Felicidade Sempre Insuficiente

O objectivo para o qual o princípio do prazer nos impele — o de nos tornarmos felizes — não é atingível; contudo, não podemos — ou melhor, não temos o direito — de desistir do esforço da sua realização de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser seguidos para isso; alguns dedicam-se ao aspecto positivo do objectivo, o atingir do prazer; outros o negativo, o evitar da dor. Por nenhum destes caminhos conseguimos atingir tudo o que desejamos. Naquele sentido modificado em que vimos que era atingível, a felicidade é um problema de gestão da libido em cada indivíduo. Não há uma receita soberana nesta matéria que sirva para todos; cada um deve descobrir por si qual o método através do qual poderá alcançar a felicidade. Toda a espécie de factores irá influenciar a sua escolha. Depende da quantidade de satisfação real que ele irá encontrar no mundo externo, e até onde acha necessário tornar-se independente dele. Por fim, na confiança que tem em si próprio do seu poder de modificar conforme os seus desejos. Mesmo nesta fase, a constituição mental do indivíduo tem um papel decisivo, para além de quaisquer considerações externas. O homem que é predominantemente erótico irá escolher em primeiro lugar relações emocionais com os outros; o tipo narcisista, que é mais auto-suficiente, procurará a sua satisfação essencial no trabalho interior da sua alma; o homem de acção nunca abandonará o mundo externo no qual pode experimentar o seu poder.

Sigmund Freud, in 'A Civilização e os Seus Descontentamentos'

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Teu Mundo

Ainda me alteras os passos se te vejo passar
Energias se cruzam num segundo do olhar
Num momento em que somos só dois na multidão, e desejamos voltar...

Ainda me alteras a fala se te encontro parada
Nesse sensual fumo, nessa cinza esquecida de quem não se interessa
Ou de quem não atura os teatros da vida

Ainda me fazes pensar, quase achar, que te amo
Quase achar que o destino se enganou no caminho
Esperar que me toques é vicio que adoro e que me faz pensar

Foi mais um sol que nasceu mais uma vez igual
Mais uma vez contigo esquecemos o mal
que nos fazemos aos dois por deixar para depois o que fizemos real

Mais uma vez um abraço, aquele abraço de sempre
Aquele abraço que sente o que para sempre é segredo
Impaciente segredo e suave presença perdida em nós, despida em nós

Ainda me fazes pensar, quase achar, que te amo
Quase achar que o destino se enganou no caminho
Esperar que me toques é vicio que adoro e que me faz pensar

Só não te quero ver chorar por ti,
Só não te quero ver a olhar para trás, para nós

O teu mundo é como eu,
Gosta de saber porquê,
Só alguns sabem olhar esse fumo que é só teu

Ainda me fazes pensar, quase achar que te amo
O teu mundo é como eu
O teu mundo é como eu
O teu mundo é só teu...e meu

Ainda me alteras os passos se te vejo passar

By Toranja

Valentine's Day

My insides all turn to ash,so slow
And blew away as I collapsed,so cold
A black wind took them away from sight
And held the darkness over day,That night…

And the clouds above move closer
Looking so dissatisfied
But the heartless wind kept blowing, blowing

I used to be my own protection,but not now
'Cause my path has lost direction somehow
A black wind took you awayf rom sight
And held darkness over day,That night…

And the clouds above move closer
Looking so dissatisfied
And the ground below grew colder
As they put you down inside
But the heartless wind kept blowing, blowing

So now you're gone
And I was wrong
I never knew what it was like
To be alone...

On a valentine's day, On a valentine's day
On a valentine's day, On a valentine's day

On a valentine's day, On a valentine's day
(I used to be my own protection
But not now)
On a valentine's day, On a valentine's day
('Cause my mind has lost direction
Somehow)

On a valentine's day, On a valentine's day
(I used to be my own protection
But not now)
On a valentine's day, On a valentine's day
('Cause my mind has lost direction
Somehow)

By Linkin Park

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Alegria de Não Esquecer

Guardo em mim cada palavra da famosa publicação na rede social da qual muito se falou.Guardo também para mim todos os comentários proferidos por alguns,aqueles que a leram,e daqueles que ouviram falar dela...Comentários esses nunca dirigidos à minha,na altura,triste personagem,mas sempre em diálogos perfeitamente "boáticos" (nem sei se existe esta palavra,numa alusão aos famosos boatos que tanto a sociedade adora).Pois bem, eu até entendo,a sociedade tem muito tempo livre,ou tem muita necessidade de ocultar as próprios sentidos com as "coisas" dos outros.Por mim,tudo bem, até certo ponto...Viver em sociedade,em comunidade,tem destas contradições,a parte boa,conviver,rir, beber copos no café,etc...e a parte estranha e estúpida,as conversas nas costas,os boatos,o gozo de apontar defeitos e atitudes...Admito,em tempos tive vergonha de alguns actos,porque simplesmente não gosto de andar na boca do povo,e porque a instabilidade emocional era isso mesmo,inconstante, e ainda, e principalmente,porque envolvia não só a minha pessoa mas também outra...Mas o arrependimento é coisa que a mim não me assiste, e se tivesse que passar por tudo de novo,sem dúvida que o faria com a mesma frontalidade e a mesma sensação honesta,com lágrimas, com alcool, com cigarros,com dôr,com paixão...porque vivemos todos debaixo do mesmo Sol,da mesma Lua,e quem (felizmente)nunca passou por este tipo de situações,deve respeitar e tentar entender...Pior são aqueles cujas vidas já deram tantas voltas,assim como a minha, e já se esqueceram como foi...Enfim,vidas às quais não me quero colar,porque se houve coisa positiva neste processo todo,é que se faz a selecção natural das personalidades.Não guardo rancôr,mágoa ou qualquer tipo de negativismo,porque eu já conhecia tudo,não foi qualquer surpresa...A única verdadeira vergonha foi ter precisado de apoio,e dar de frontal com este de realidade...Mas agora agradeço profundamente ao passado,ensinou-me mais uma vez uma grande lição,aquela lição dura mas realista,que não há ninguém como eu,que só posso,só devo contar comigo e com a minha força,aquela mesma força que me valeu durante toda a vida,a força que quase me faltou,mas que nunca desistiu de me apoiar.Levanto aos poucos a cabeça,enfrento de novo a vida,porque a dada altura eu não vivi,apenas sobrevivi!Vejo agora claramente com quem contar,vejo perfeitamente quem vive à espera do deslize,vejo as amizades que tomaram partido em situação dividida (coisa que nunca por nunca fiz,tomar partido de alguém em deterimento de outro),vejo também,que afinal,não fui só eu,não sou só eu quem está menos bem...Descubri com isto tudo, que não se ultrapassa uma situação destas esquecendo,assim só por esquecer, as memórias fazem, têm de fazer parte da nossa existência!Partilho com quem quiser o que de bom tenho para dar,partilho e convivo alegremente com todos de bem, porque precisamos de viver,a vida é demasiado curta para futilidades...


Ivo Nunes 04.02.2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Here By Me - 3 Doors Down

I hope you're doing fine out there without me
'Cause I'm not doing so good without you
The things I thought you'd never know about me
Were the things I guess you always understood

So how could I have been so blind for all these years?
Guess I only see the truth through all this fear
Of living without you?

And everything I had in this world
And all that I'll ever be
It could all fall down around me.
Just as long as I have you,
Right here by me.

I can't take another day without you
'Cause baby, I could never make it on my own
I've been waiting so long, just to hold you
And to be back in your arms where I belong

Sorry I can't always find the words to say
Everything I've ever known gets swept away
Inside of your love

As the days grow long I see
Some is standing still for me
When you're not here

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pudesse Eu Contar as Vezes

Pudesse eu contar as vezes que ferrei os cantos da boca imaginando que eram teus os dentes que assim me amavam; que eram os teus lábios aqueles que, nessas ocasiões, eu mordia. Lembras-te de uma frase que costumavas citar, por tê-la escutado em qualquer parte, ou lido, já não sei bem? Aquela que dizia
- A minha anatomia enlouqueceu; sou toda corarão.
Pois é como me tenho sentido, mais ou menos assim, com a anatomia enlouquecida, sem saber já quais são os meus dentes ou qual a minha boca; como se cada pedaço meu não fosse mais do que saudade de ti: o desejo de te voltar a ver, de te cobrir outra vez de beijos - olhos, boca, rosto, o corpo todo de beijos -, de te abraçar e sentir o teu cheiro, de tomar nas mãos o ramo crespo dos teus cabelos e inalar a fragrância do teu pescoço. Possuo agora, em mim apenas, nos limites da minha topografia, toda a exaltação dos nossos corpos e sinto que não chego para tanto porque a soma de nós dois excedeu sempre a existência física dos nossos corpos. É como se rebentasse por dentro e tivesse de esticar a alma - ou lá o que é - para me ser possível reter ao menos um pouco do que daí sobrou.

Manuel Jorge Marmelo, in 'O Amor É para os Parvos'

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Sociedade é um Sistema de Egoísmos Maleáveis

"A sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis, de concorrências intermitentes. Como homem é, ao mesmo tempo, um ente individual e um ente social. Como indivíduo, distingue-se de todos os outros homens; e, porque se distingue, opõe-se-lhes. Como sociável, parece-se com todos os outros homens; e, porque se parece, agrega-se-lhes. A vida social do homem divide-se, pois, em duas partes: uma parte individual, em que é concorrente dos outros, e tem que estar na defensiva e na ofensiva perante eles; e uma parte social, em que é semelhante dos outros, e tem tão-somente que ser-lhes útil e agradável. Para estar na defensiva ou na ofensiva, tem ele que ver claramente o que os outros realmente são e o que realmente fazem, e não o que deveriam ser ou o que seria bom que fizessem. Para lhes ser útil ou agradável, tem que consultar simplesmente a sua mera natureza de homens.

A exacerbação, em qualquer homem, de um ou o outro destes elementos leva à ruína integral desse homem, e, portanto, à própria frustração do intuito do elemento predominante, que, como é parte do homem, cai com a queda dele. Um indivíduo que conduza a sua vida em linhas de uma moral altíssima e pura acabará por ser ultrajado por toda a gente - até pelos indivíduos que, sendo também morais, o são com menos altura e pureza. E o despeito, a amargura, a desilusão, que corroem a natureza moral, serão os resultados da sua experiência. Mas também um indivíduo, que conduza a sua vida em linhas de um embuste constante, acabará, ou na cadeia, onde há pouco que intrujar, ou por se tornar suspeito a todos e por isso já não poder intrujar ninguém. "

Fernando Pessoa, in 'Os Preceitos Práticos em Geral e os de Henry Ford em Particular'

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

"Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

No Amor é a Alma aquilo que Mais nos Toca

"As mesmas paixões são bastante diferentes nos homens. O mesmo objecto pode-lhes agradar por aspectos opostos; suponho que vários homens podem prender-se a uma mesma mulher; uns a amam pelo seu espírito, outros pela sua virtude, outros pelos seus defeitos, etc. E pode até acontecer que todos a amem por coisas que ela não tem, como quando se ama uma mulher leviana a quem se julga séria. Pouco importa, a gente prende-se à idéia que se tem prazer em fazer dela; e é mesmo apenas essa idéia que se ama, não é a mulher leviana. Assim, não é o obje­to das paixões que as degrada ou as enobrece, mas a ma­neira como a gente o encara.

Ora, eu disse que era pos­sível que se buscasse no amor algo mais puro do que o interesse dos nossos sentidos. Eis o que me faz pensar assim. Vejo todos os dias no mundo que um homem cer­cado de mulheres com as quais nunca falou, como na missa, no sermão, nem sempre se decide pela mais boni­ta, ou mesmo pela que lhe pareça tal. Qual a razão disso? É que cada beleza exprime um carácter bem particular, e preferimos aquele que melhor se encaixa no nosso. É pois o carácter que nos determina algumas vezes; é então a alma que procuramos: não me podem negar isso. Por­tanto, tudo o que se oferece aos nossos sentidos só nos agrada como a imagem daquilo que se esconde à vista deles; portanto, só gostamos então das qualidades sensí­veis como órgãos do nosso prazer, e com subordinação às qualidades imperceptíveis aos sentidos, de que elas são a expressão; portanto, pelo menos é verdade que a alma é aquilo que mais nos toca. Ora, não é aos sentidos que a alma é agradável, mas ao espírito: assim, o interes­se do espírito torna-se o principal, e se o interesse dos sentidos lhe fosse oposto, nós o sacrificaríamos. Basta pois nos persuadirmos de que ele lhe é verdadeiramente oposto, que é uma nódoa para a alma. Eis o amor puro.
Amor no entanto verdadeiro, que não se deve con­fundir com a amizade; porque na amizade, é o espírito que é o orgão do sentimento; aqui, são os sentidos. E como as idéias que vêm pelos sentidos são infinitamente mais poderosas do que as vistas da reflexão, o que elas inspiram é a paixão. A amizade não vai tão longe. "

Luc de Clapiers Vauvenargues, in 'Das Leis do Espírito'

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

As Subtilezas da Alma

"Tal como o corpo assimila coisas de toda a natureza - vulgares, poluídas ou purificadas por um padre ou por uma visão - e as converte em destreza ou força, músculo ou suavidade de linhas, curvas e cor do cabelo, dos lábios e dos olhos, assim também a Alma, por sua vez, tem as suas funções assimiladoras e pode transformar em nobres pensamentos e elevadas paixões o que em si mesmo é baixo, cruel e degradante; mais ainda, pode encontrar nestas a maneira mais digna de afirmação. E muitas vezes pode revelar-se a si mesma de um modo mais perfeito através daquilo que estava destinado a destruí-la ou a profaná-la. "

Oscar Wilde, in "De Profundis"

A Admiração é a Primeira de Todas as Paixões

"Quando o primeiro contacto com algum objecto nos surpreende e o consideramos novo ou muito diferente do que conhecíamos antes ou então do que supunhamos que ele devia ser, isso faz que o admiremos e fiquemos espantados com ele. E como tal coisa pode acontecer antes que saibamos de alguma forma se esse objecto nos é conveniente ou não, a admiração parece-me ser a primeira de todas as paixões. E ela não tem contrário, porque, se o objecto que se apresenta nada tiver em si que nos surpreenda, não somos emocionados por ele e consideramo-lo sem paixão. "

René Descartes, in 'As Paixões da Alma'

Conceitos de Perfeição

"Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita. A cada modo de a ter por imperfeita corresponderá, por contraste e semelhança, um conceito de perfeição. É a esse conceito de perfeição que se dá o nome de ideal.
Por muitas que pareça que devem ser as maneiras por que se pode ter a vida por imperfeita, elas são, fundamentalmente, apenas três. Com efeito, há só três conceitos possíveis de imperfeição, e, portanto, da perfeição que se lhe opõe.

Podemos ter qualquer coisa por imperfeita simplesmente por ela ser imperfeita; é a imperfeição que imputamos a um artefacto mal fabricado. Podemos, por contra, tê-la por imperfeita porque a imperfeição resida, não na realização, senão na essência. Será quantitativa ou qualitativa a diferença entre a essência dessa coisa imperfeita e a essência do que consideramos perfeição; quantitativa como se disséssemos da noite, comparando-a ao dia, que é imperfeita porque é menos clara; qualitativa como se, no mesmo caso, disséssemos que a noite é imperfeita porque é o contrário do dia.

Pelo primeiro destes critérios, aplicando-o ao conjunto da vida, tê-la-emos por imperfeita por nos parecer que falece naquilo mesmo por que se define, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Assim, todo o corpo é imperfeito porque não é um corpo perfeito; toda a vida vida imperfeita porque, durando, não dura sempre; todo o prazer imperfeito porque o envelhece o cansaço; toda a compreensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incompreensível que a cerca. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida, quem assim a compara com ela própria, tendo-a por infiel à sua própria natureza, força é que sinta como ideal um conceito de perfeição que se apoie na mesma vida. Este ideal de perfeição é o ideal helénico, ou o que pode assim designar-se, por terem sido os gregos antigos quem mais distintivamente o teve, quem, em verdade, o formou, de quem, por certo, ele foi herdado pelas civilizações posteriores.

Pelo segundo destes critérios teremos a vida por imperfeita por uma deficiência quantitativa da sua essência, ou, em outras palavras, por a considerarmos inferior - inferior a qualquer coisa, ou a qualquer princípio, em o qual, em relação a ela, resida a superioridade. É esta inferioridade essencial que, neste critério, dá às coisas a imperfeição que elas mostram. Porque é vil e terreno, o corpo morre; não dura o prazer, porque é do corpo, e por isso vil, e a essência do que é vil é não poder durar; desaparece a juventude porque é um episódio desta vida passageira; murcha a beleza que vemos porque cresce na haste emporal. Só Deus, e a alma, que ele criou e se lhe assemelha, são a perfeição e a verdadeira vida. Este é o ideal que poderemos chamar cristão, não só porque é o cristianismo a religião que mais perfeitamente o definiu, mas também porque é aquela que mais perfeitamente o definiu para nós.

Pelo último dos mesmos critérios teremos a vida por imperfeita por a julgarmos consubstanciada com a imperfeição, isto é, não existente, porque a não existência, sendo a negação suprema, é a absoluta imperfeição. Teremos a vida por ilusória; não já imperfeita, como para os gregos, por não ser perfeita; não já imperfeita, como para os cristãos, por ser vil e material; senão imperfeita por não existir, por ser mera aparência, absolutamente aparência, vil portanto, se vil, não tanto com a vileza do que é vil, quanto com a vileza do que é falso. É deste conceito de imperfeição que nasce aquela forma de ideal que nos é mais familiarmente conhecida no budismo, embora as suas manifestações houvessem surgido na Índia muito antes daquele sistema místico, filhos ambos, ele como elas, do mesmo substrato metafísico. É certo que este ideal aparece, com formas e aplicações diversas, nos espiritualistas simbólicos, ou ocultistas, de quase todas as confissões. Como, porém, foi na Índia que as manifestações formais dele distintivamente apareceram, podemos ser imprecisos, porém não seremos inexactos, se dermos a este ideal, por conveniência, o nome de ideal índio. "

Fernando Pessoa, in 'Textos de Crítica e de Intervenção'

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Silêncio

Chega a noite,chega a solidão...E aqui sozinho,neste silêncio insurdecedor,só a minha mente ouve
sons onde mais ninguém conseguiria nunca alcançar!São os ruídos,são barulhos,nem sei,mas sinto...
É nestes momentos que me auto-critico por tantas vezes desejar estar sozinho,quando afinal ter
companhia,ouvir barulho,afasta este silêncio tão melancólico...Recordações,dôr,saudade,vontade,
desejo...Serão estes barulhos que ouço neste silêncio obtuso,inconsciente,estranho?Sim,tudo isso,
e felizmente muito mais...Nem só ao passado se resume este silêncio... Um desejo ardente de um
reencontro feliz com a própria existência,com o meu mais básico ser.E silêncio após silêncio,cada
dia passado,tem sido um revelar de fontes,onde cada instante é uma aventura,cada minuto é uma
vitória...Finalmente,acredito,após tanto tempo perdido na minha fraca auto-estima,que sou mais,
sou melhor,sou...eu!!


Ivo Nunes 04.01.2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Dia Um

Dia dois...Começo pelo segundo,porque o primeiro não chegou a acabar...Mas quero,preciso,e tenho
mesmo de passar à frente.Estupidamente foi um dia tranquilo,levado por uma absurda necessidade
de calma e serenidade.De volta à rotina,aos horários,aos pensamentos e devaneios,assim se passou
mais esta etapa.Fiquei feliz,consegui resistir,consegui mostrar o meu melhor sorriso,espero e
desejo ter conseguido transparecer força e determinação.Desejo mesmo não ter demonstrado aquilo
que aqui vai dentro...Porque a idéia é sair da frente,desviar atenções,criar caminho livre para
essa grande força,que não me deixou viver o dia um até ao fim,tenha um final feliz!!E vou fazer
de tudo,para que isso aconteça,juro!!Transfiro a minha também grande força para esse objectivo,
porque não quero voltar a ser,a ter,ou as duas coisas,já nem sei,um obstáculo para aquilo que tem
de ser...Afinal,o dia um ainda não acabou,mas existiu,e deixou marca!Saio por fim de cena,porque
é imperativo que assim aconteça,e sem mais "se's", tambem sei que não estou sozinho nisto...


Ivo Nunes 02.01.2012